quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Homenagem a Sebastião da Gama

Aproveito para lembrar que hoje, na Unicepe, poderão participar na sessão de poesia e música, este mês dedicada a Sebastião da Gama (Azeitão, 1924 - 1952), a partir das 21h30 e até às 23h. Deixo-vos um seu poema.

Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.
O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!...
Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias.)
Tic-tac...
(Como eu rio, cá p'ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Acerca da Unicepe - O Lugar

Sabe-se que o silêncio é uma das mais pungentes armas de comunicação. Que do mais acérrimo secretismo, surgem, por vezes, palavras imbuídas do inefável. Sabe-se que as mais intensas sensações são indizíveis. Mas não será, contudo, de excluir a tentativa de expressar-me acerca de algumas, na presença das quais se tem vergado o meu espírito.

Tenho, ao longo dos meus dias, coleccionado frases que me inchem do que de arrebatador delas transpira, folheado livros que espero que se ergam, muito além do que possam alcançar as minhas mãos. Tenho trocado palavras com pessoas a quem posso, por momentos, decifrar o íntimo, atravessando-lhes a crosta, ouvindo o que releva de tudo o que acompanha o que me é dito. E o que o não é.

Em palavras simples, digo, então, porque me é tão necessário integrar esta família: gosto de subir a escadaria, de ouvir os passos na pedra. De entrar com uma saudação de ambas as partes. De ver o que de novo surge num lugar que não era o seu, na visita precedente. Dos sorrisos que se trocam. Do contacto entre as vozes. Do silêncio que transcende o burburinho. E do cheiro, da presença, daquela luminosidade oculta que ganham os sítios que tomamos para nós como uma casa.

Conhecem a sensação?

Natália Reis

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sugestão de compra

É com entusiasmo que aqui deixo algumas dicas de leitura, de entre as novidades que têm chegado à Unicepe:

Ofício Cantante de Herberto Hélder
Assírio & Alvim - 2009
Preço de Capa: 48€

2º lançamento da colecção BIIS, de que constam os seguintes títulos:
O Vale da Paixão de Lídia Jorge
Intermitências da Morte de José Saramago
Os da Minha Rua de Ondjaki
Histórias Extraordinárias de Edgar Allan Poe
Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll
As Aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira
de António Nobre
O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo de Germano Almeida
História Universal da Infâmia de Jorge Luis Borges
Contos e Diário de Florbela Espanca
A Montanha da Água Lilás de Pepetela
Amadeo de Mário Cláudio
Aldeia Nova de Manuel da Fonseca
A Confissão de Lúcio de Mário Sá Carneiro
Capitães da Areia de Jorge Amado

Leya - 2009
Preço de capa: 5,95€
E que tal ir preparando a próxima noite de música e poesia da Unicepe, dedicada a Sebastião da Gama? Temos à venda toda a sua obra disponível - Estevas, Diário, Cabo da Boa Esperança, A Minha Arca de Noé, Itinerário Paralelo, Cartas I, O Segredo é Amar, Não morri porque cantei, O Campo Aberto, Pelo sonho é que vamos - e também Sebastião da Gama - o Poeta e o Professor - Estudos e Perspectivas, editado pela Associação Cultural Sebastiãoda Gama, com sede em Azeitão. Por cada livro adquirido ofereceremos um Boletim Informativo da Associação (já foram publicados 5).
Boas leituras :)
Natália Reis

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Acerca da Unicepe - Edição

Depois de iniciar este blog com um artigo (ao qual darei, provavelmente, continuidade, mais tarde, já que razões para divagar entre os livros há-as de sobra), deixo, finalmente, aos seus futuros leitores e participantes uma mensagem de boas vindas.


Era minha intenção elucidar-vos acerca de algumas boas razões para divagar entre os livros, na Unicepe, mais especificamente, mas isso é algo que guardarei para apresentar-vos ao longo do tempo.


Por agora, publico aqui a lista de livros publicados, até hoje, pela Cooperativa, uma das muitas possíveis formas de iniciar uma sua apresentação.

Edições Unicepe:

Liberdade de Imprensa e Dignificação da Palavra, Nuno Teixeira Neves - Ensaio (esgotado)
Um Nome para o seu Filho e para a sua Filha, seguido de Os Escritores e os Nomes- (Caricaturas de Celso Hermínio), Arnaldo Saraiva - Ensaio (esgotado)
Negativos, Fernando Guerreiro (Caricaturas de Celso Hermínio) - Ensaio
Coisismos, Paulo Varela Gomes - Ensaio
Capital-Mueda - 2ªediç.Maio 1993, Jorge Ribeiro - Ficção (esgotado)
Alpondras, Manuel Amaral Conto – Teatro
Camões, grande Camões… - 184 poemas de homenagem, de 111 poetas nacionais e 73 estrangeiros em 8 línguas - Ilustrações de António Menano e Roberto Merino) (Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho - Poesia
Uma História da Abelhinha e outra do Cão Mico, Manuel Amaral (Ilustrações de António Cardoso) - Conto infantil
Mar inVerso, Milton Miranda - Poesia
Gente, Terras, Dia a Dia, Manuel Amaral - Poesia
Risadinha, Rosa Maria Valente Soares - (Ilustrações de Lídia Duarte) - Conto infantil
Venite in Silentio, Risoleta Pinto Pedro - Ficção
Comunicação, Lógica e Retórica Forenses, José Vigário Silva - Direito
A Circulatura do Quadrado - Alguns dos mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa, Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho - Poesia
Pimpão e os Leões, Domingos de Oliveira - Conto infantil
Poemas Imperfeitos, Maria Virgínia Monteiro - Poesia

(Livros que encontrarão com facilidade numa visita à Unicepe, e de que falarei em pormenor, mais tarde)

Natália Reis

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Razões para divagar entre os livros

I
Há pouca razão, geralmente, numa deambulação literária, mas arrisco enunciar boas razões para a incursão numa. Roland Barthes disse n’O Prazer do Texto, que este, o prazer do texto, era o momento em que o seu corpo seguia as suas próprias ideias, pois este não tinha ideias coincidentes às dele. Também o meu corpo não é totalmente regido pelo que dita a minha consciência, no que tenho de mais racional. De mais – isolada, ilusória, verdadeiramente – eu.
Das palavras (quando, na inteireza do que expressam, assumem o seu carácter orgânico) releva um misto de perturbação e de prazer. Uma leitura opera em sentidos diversos, implicando sempre que se tome posição – quer seja de repulsa, de indiferença, ou de admiração. As emoções, das que nos desperta um texto, carregam traços do que, de tão quase visceral, é tão obscuramente vida.
Daí que me seja tão perversa a existência de uma enorme quantidade de livros que jamais poderei ler (ainda que vivesse para lá da mais ousada velhice), que me corroa a presença de alguns intrusos que se fazem passar por eles, que me fascine e tumultue ver, numa parte deles, mesmo que ínfima, transcrito o que de mais íntimo sustenta o meu ser por inteiro.
E por haver palavras, frases impressas na imensurabilidade das folhas, cujo dom é o da alteração do espírito dos homens, se renova, a cada dia, o que é diante de nós exposto, a fim de conquistar-nos. A exigência cresce de forma proporcional ao desenvolvimento – cabe a nós decidir. Por isso, divago interminavelmente entre os livros, esperando, ávida, por um momento em que me abandono ao que, fora e dentro de mim, neles explode.
Natália Reis